
Brasília, 22 de abril de 2026.
Desde 16 de março, o país passou a contar com o seu primeiro parâmetro nacional dedicado exclusivamente à infraestrutura, o Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR), desenvolvido com base no conceito do Índice de Progresso Social (IPS Brasil), seguindo seu modelo de análise multidimensional. São 67 indicadores, distribuídos nas dimensões: Energia e Conectividade; Mobilidade; Água; Bem-Estar e Cidadania; Meio Ambiente e Resiliência e Saneamento Básico. A iniciativa é fruto de um termo de colaboração entre o Confea e o Centro de Empreendedorismo da Amazônia (CEA), uma das organizações idealizadoras do IPS Brasil. O acesso se dá pelo site www.infrabr.org.br
“Por meio desses dados, atualizados anualmente, iremos oferecer aos gestores uma ferramenta para demonstrar onde ele poderá planejar e investir melhor em políticas públicas voltadas para as infraestruturas de saneamento, água, mobilidade, energia, ampliando a sustentabilidade e a eficiência em todo o país, entendendo a infraestrutura como uma política de Estado”, considera o presidente do Confea, eng. Vinicius Marchese. No final do ano passado, ele participou da série “O Brasil que o Brasil não Conhece”, percorrendo cinco municípios com os piores IPS do país. A seguir, convidamos os profissionais do Sistema a conhecer mais de perto o Infra-BR e sua trajetória, do Confea para o mundo.
A característica multidimensional do Infra-BR, que não deixa de lado todo o histórico estrutural dos estados e do Distrito Federal – o que prejudica, por exemplo, eventuais usos eleitorais do Índice, sobretudo em um ano de eleições gerais no país – é um dos fatores para explicar, por exemplo, como o Distrito Federal ocupa, atualmente, o melhor desempenho entre as unidades da federação no Índice. Confira o mapa acima, reunindo o ranking geral por cores. Nosso comentário se identifica com as ponderações metodológicas descritas abaixo e em reportagens anteriores sobre o Infra-BR.

Assim, é possível reconhecer o resultado final consolidado pelo Índice, que, por meio de tabelas comparativas e gráficos de barras, em forma de mapas de calor, gerais e por dimensão, retrata e apresenta realidades históricas já conhecidas e outras que podem ser mais surpreendentes. Com todas as variações entre as dimensões, o país soma uma nota de 56.92/100. Média que, se não o coloca em uma condição de maior eficiência, alcançada pelo Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais (na ordem das seis maiores médias gerais) também o faz superar (em quase o dobro) as médias registradas na maioria dos estados da região Norte (à exceção de Roraima, Rondônia e Tocantins) e ainda no Maranhão, que oscilam entre 28.63 (Acre) e 36.83 (Maranhão), os piores desempenhos nas seis dimensões analisadas.
Também a título de exemplo, podemos sintetizar os resultados de cada uma das seis dimensões e também os resultados gerais positivos e negativos na melhor e na pior dimensão encontrada no país. Assim, vejamos, em ordem descrescente, as médias de cada uma das seis dimensões, lembrando que a média brasileira é de 56,92:
- Energia e Conectividade (61.82), sobressaindo as mesmas seis unidades da federação que lideram o ranking geral e ainda o avanço de estados como Rio Grande do Norte, Pará e Paraíba, em relação ao ranking total;
- Água (58,74), com as principais médias em São Paulo (73,07), Distrito Federal (73,04) e Santa Catarina (72.30); e as piores no Pará (13,59), no Amapá (20,44) e no Acre (22,43);
- Bem-Estar Social e Cidadania (57,89), com destaques positivos para Paraná (70,50), São Paulo (68,76) e Rio Grande do Sul (68,26) e ainda para Goiás (4º, 65,18) e Ceará (10º, 60,07);
- Saneamento Básico (55,20), tendo novamente o Distrito Federal à frente com 80,19, seguido de Paraná (76,29) e Santa Catarina (73,85). São Paulo (7º) e Rio de Janeiro (8º) atingem apenas 60,29 e 59,18, respectivamente. Bem abaixo, Acre (11,28), Maranhão (18,85) e Pernambuco (31,02) ocupam as últimas posições;

- Mobilidade (54.84), a liderança do Distrito Federal (75,85), Rio de Janeiro (70,26) e São Paulo (66,43) têm a companhia do Ceará (58,81), Pernambuco (55,77) e Sergipe (55,27), com Amapá (33.83), Rio Grande do Sul (35,26) e Amazonas (36,45) entre as piores colocações da dimensão;
- Meio Ambiente e Resiliência (54.02), com o Distrito Federal muito à frente dos demais estados com 87,08, seguido de Rio de Janeiro (72,36) e Minas Gerais (68,85) e deixando Ceará (24,75), Piauí (24,25) e Rio Grande do Norte (22,91) nas condições com pior avaliação.
- Objetivos e referenciais do Infra-BR
Gestor do termo de colaboração entre o Confea e o CEA, o assessor da presidência do Confea Alexandre Borsato considera que uma das intenções do Infra-BR é permitir que diversas camadas da sociedade façam uso do índice: desde os tomadores de decisão, que poderão identificar deficiências de infraestrutura e alocar os recursos de forma mais inteligente e organizada, até a população, que terá, por sua vez, mais um elemento de medição da qualidade da infraestrutura nas regiões onde moram. Benchmarks metodológicos e de organizações internacionais, análises de metodologias de cálculo e de interpretação de resultados e discussões entre os desenvolvedores e a Comissão de Monitoramento e Avaliação do termo foram algumas das etapas realizadas, até a última versão do Relatório Metodológico.
“Por ter o viés de identificar GAPs de infraestrutura, o Infra-BR pode ainda aumentar a atratividade para investidores que possuam em seu portfólio e em seu corpo técnico a expertise necessária para suprir essas lacunas. Além de identificar as regiões onde são necessários investimentos para implementar a infraestrutura propriamente dita, também poderão ser identificadas as regiões que já tenham uma boa oferta de infraestrutura para que assim possa atrair empreendimentos que já necessitam se instalar em locais estruturados. Para chegar a esses dados, foi preciso muito mais estudos do que simplesmente apenas selecionar os dados relacionados à infraestrutura no IPS Brasil, houve toda uma nova formatação científica, exigida para a construção de um novo índice”, acrescenta Borsato.
Outro referencial do Infra-BR foi o documento “Report Card for America’s Infrastructure” em que a American Society of Civil Engineers (ASCE) avalia periodicamente e se posiciona sobre a infraestrutura norte-americana, por meio de um sistema de notas (A-F) que articula diagnóstico técnico, comunicação pública acessível e incidência política. “Incorporamos principalmente essa lógica de avaliação padronizada por setores, a síntese comunicacional (scorecards e fact sheets) e também a visão sistêmica a respeito da interdependência entre as áreas. Eles entendem a infraestrutura como um ‘sistema de sistemas’, essencial à segurança, prosperidade econômica e resiliência da sociedade. Assim, o conceito valoriza a integração de dimensões sociais, ambientais e de governança, optando por não reproduzir o foco clássico em infraestrutura física. O relatório da ASCE que acompanhamos justificou que o Congresso americano passasse a investir um trilhão e 200 bilhões de dólares em infraestrutura desde 2021”, descreve Alexandre Borsato.
Borsato aponta ainda que, ao longo da construção do Infra-BR, foram ouvidos especialistas em todas as dimensões do Índice e que puderam opinar sobre o desenho dos indicadores, fase considerada “importantíssima” para a credibilidade do Índice. Esses especialistas dialogaram com os pesquisadores responsáveis pelo IPS Brasil sobre o melhor dimensionamento de cada um dos indicadores, definindo prioridades. “Após várias rodadas, foi possível chegar a um consenso. A exemplo do IPS Brasil, o Infra-BR terá periodicidade anual e vai se basear sempre nos dados mais atuais que estiverem disponíveis”.
Gestor do termo de colaboração entre o CEA e o Confea, o assessor da presidência do Confea Alexandre Borsato destaca a importância do dimensionamento dos dados da infraestrutura brasileira
Internamente, diz o assessor, o Confea contará também com o trabalho da Comissão de Monitoramento e Avaliação formada pelos conselheiros federais Osmar Barros Júnior e Paulo Pinho e pelos empregados Pedro Celestino e Ricardo Sotto, além do próprio Alexandre. “Tivemos a grata surpresa de conhecer o trabalho de vocês no IPS. Já é uma questão que a gente debate muito nos nossos fóruns, de que forma, com essa radiografia do país, nós podemos ajudar os nossos gestores a melhorar a qualidade de vida do país. E como a gente pode participar como uma entidade que tem mais de um milhão de profissionais, mais de 400 mil empresas de Engenharia, Agronomia e Geociências”, comentava o conselheiro federal Osmar Barros Junior, durante uma das reuniões entre os grupos organizadores do Infra-BR, em dezembro do ano passado.
“Fizemos recentemente um mapeamento de todos os lixões da Amazônia, um trabalho interno que nasceu no Confea. E o fato é que nós, ao mapearmos os lixões, mapeamos a ausência de infraestrutura”, lembrava o conselheiro Paulo Pinho. “Não é a nossa missão principal. Nossa missão principal é regular e fiscalizar o exercício da engenharia. Só que nós fazemos isso também quando nós tiramos da ação quem está trabalhando de forma errada, quem não está executando as suas funções de forma errada ou equivocada. Então, de certa forma, tem tudo a ver, né? Se um conselho de engenharia não pode trabalhar com essas questões, quem vai poder?”, apontou ainda Osmar Barros Junior.
Na mesma ocasião, Alexandre Borsato descortinou os principais objetivos do Infra-BR, apresentando exemplos em torno da realidade brasileira. “Fazer o diagnóstico melhor, o planejamento melhor, o monitoramento, conceituar melhor, fazer a comparação, isso estimula a participação social porque o índice começa a ser mais publicizado, cobram o gestor. Segundo o ministério da Saúde, só em 2023, o Brasil registrou quase 200 mil internações provocadas pelas chamadas doenças de veiculações hídricas. Ou seja, à medida que eu comece a investir em saneamento, eu tiro uma pressão gigante da construção de postos de saúde, de hospitais. Eu não preciso combater a doença com o médico, posso combater com saneamento, cuidando da causa”, explicou, considerando que as prioridades de gestão devam ser definidas a partir das evidências apontadas pelo Infra-BR. “Queremos instigar o gestor a investir nas bases para aumentar o Índice e dar mais qualidade de vida às pessoas”.





Por dentro do Infra-BR
A construção e o uso de indicadores no âmbito do Infra-BR dialogam com o debate sobre Políticas Públicas Baseadas em Evidências (PPBEs), que não atuam isoladamente, mas ao lado de diversos cenários da realidade institucional e social. “Produzir evidências é condição necessária, mas não suficiente: é preciso que existam instituições estatais com capacidade de absorver, traduzir e legitimar esse conhecimento no debate democrático”, cita a versão final do Relatório Metodológico do Infra-BR.
A atualidade conceitual do Índice também está presente na preocupação com a transversalidade da dimensão Meio Ambiente e Resiliência, abrangendo ainda outros aspectos de uma visão sistêmica que dialoga com matrizes de vieses ecológicos e evolutivos. “A relação entre cobertura vegetal, funcionamento hidrológico e redução de riscos, reconhecendo que ecossistemas preservados e soluções baseadas na natureza desempenham papel central na mitigação de enchentes, enxurradas, secas e ilhas de calor, além de contribuírem para a qualidade ambiental e regulação do clima local”, descreve.
Ainda conforme o documento, a seleção das duas áreas temáticas e dos oito indicadores do eixo orienta-se por recomendações internacionais que enfatizam a necessidade de combinar métricas de exposição a perigos climáticos, condições ecológicas estruturantes, capacidade adaptativa e eficácia das respostas institucionais. “Parte do entendimento de que os impactos das mudanças climáticas se manifestam de forma sistêmica, com efeitos diretos sobre o ciclo hidrológico, os ecossistemas, a infraestrutura e o bem-estar das populações, exigindo abordagens integradas para sua mensuração”.
No componente (área temática) Adaptação e Resiliência Climática estão os indicadores: resiliência hídrica e áreas úmidas; redução de emissões brutas de gases de efeito estufa; segurança em barragens; Índice de Capacidade Adaptativa e percentual de municípios com planejamento de drenagem e manejo de águas pluviais. Já na Cobertura Vegetal e Conservação, estão: grau de impermeabilização urbana; taxa total de degradação; áreas verdes urbanas e infraestrutura verde hídrica (wetlands e mangues).
A presença de um índice composto consolidado, o Índice de Capacidade Adaptativa, desenvolvido pelo Adapta Brasil, exemplifica uma das condutas praticadas nas demais dimensões do Infra-BR. “O conjunto de indicadores também reflete uma compreensão ampliada de resiliência, reconhecendo sua natureza contestada entre abordagens de engenharia, ecológicas e evolutivas. Enquanto a resiliência de engenharia está associada à proteção de ativos e ao retorno a condições estáveis após perturbações, a resiliência ecológica e evolutiva enfatiza adaptação contínua, transformação e mudança estrutural. Em consonância com essa perspectiva, o Infra-BR privilegia métricas que expressem processos dinâmicos, como regeneração ambiental e fortalecimento de capacidades institucionais, e não apenas estoques físicos ou respostas pontuais”.
A relação com todos os eixos e indicadores pode ser vista na tabela desta página e será objeto de novas reportagens do Confea. Recorremos novamente ao Relatório Metodológico e ao site do Infra-BR para apontar algumas considerações sobre sua metodologia de cálculo e ainda sobre como interpretar os resultados. Vejamos a seguir algumas dessas abordagens:
• Cada componente agrega indicadores que medem um mesmo ‘construto latente’, enquanto as dimensões sintetizam conjuntos coerentes de componentes, permitindo uma análise integrada e comparável;
• Os dados passam por tratamento estatístico para garantir robustez e comparabilidade (valores extremos, transformação de escala e redução de assimetria e valores ausentes);
• Para cada indicador, são estabelecidos limites superiores (melhor cenário) e inferior (pior cenário) com base na função sigmoide. Esses limites servem como referência para a normalização;
• Todos os indicadores são orientados no mesmo sentido: valores mais altos representam melhor desempenho. Indicadores originalmente negativos são invertidos. Em seguida, os dados são normalizados, permitindo a comparação entre variáveis com diferentes unidades e escalas;
• Os pesos dos indicadores são definidos por meio de Análise de Componentes Principais (ACP), aplicada separadamente a cada componente. A técnica identifica a contribuição relativa de cada indicador para a variância total do construto, conferindo base estatística à ponderação e reduzindo arbitrariedade;
• As pontuações dos componentes são calculadas pela combinação ponderada dos indicadores normalizados, utilizando os pesos obtidos por meio de Análise de Componentes Principais (PCA). Por fim, a comparação do Infra-BR a partir das dimensões é realizada por média simples (pesos iguais) dos seus respectivos componentes, garantindo tratamento equilibrado entre os eixos da infraestrutura e resultando em uma medida sintética, transparente e metodologicamente consistente do desempenho infraestrutural das unidades da federação;
• Padronização estatística das variáveis, convertendo valores absolutos em medidas relativas à população, ao território ou a outras bases de referência pertinentes para assegurar comparabilidade formal;
• A principal forma de análise deve ser longitudinal, comparando a Unidade da Federação consigo mesma ao longo do tempo.
Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea
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